Preconceito linguístico

“Nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Rui Barbosa.” (Arnaldo Niskier, O DIA, 29/02/1999).

 

Declarações como a de cima são comuns entre muitos que acreditam que a língua que falamos seja, ou pelo menos tenha o dever de ser, o idioma de Rui Barbosa. Mas quem foi Rui Barbosa? Façamos um recorte espaço-temporal para encontrar este indivíduo na sociedade que se constituiu como brasileira.

Rui Barbosa, ou o referente principal deste nome, foi um homem, que viveu por um determinado tempo de um século passado, inserido em uma determinada época histórica e social; um homem que se constituiu como indivíduo falante de língua portuguesa naquele tempo em que viveu e que se tornou reconhecido e respeitado por sua participação histórica e política na sociedade de que fazia parte e que certamente sabia falar sua língua, a língua de Rui Barbosa, um idioleto, que seguia a norma padrão e que era, portanto, reconhecidamente similar ao idioma de nossos colonizadores, nossos irmãos portugueses, a quem respeitosamente servia.

A localização espaço-temporal de Rui Barbosa permite um recorte diacrônico da língua que se reconhecia como “certa” e “boa” naquela época; é um banco de dados riquíssimo para estudos sociolingüísticos de ordem diacrônica; é uma “língua” cujo conhecimento é também imprescindível para aqueles que pretendem, nas artes cênicas em geral, imitá-lo de forma verossímil. É, portanto, nessa última opção, e só nessa, que cabe a observação de Niskier citada anteriormente, caso alguém venha a imitar Rui Barbosa erroneamente no teatro ou em novelas e mini-séries “globais”. Só, e somente só, nessa situação. Em qualquer outro contexto essa afirmação não passará da expressão explícita de preconceito lingüístico.

A declaração de Niskier revela espantosamente que nossa cultura lingüística está profundamente contaminada pelos propósitos da declaração dada por Pombal no século XVIII quando afirmava o ensino obrigatório do idioma do Príncipe no Brasil, como podemos ver abaixo no fragmento trazido por Soares (2002, p.159).

 

“Sempre foi máxima inalteravelmente praticada em todas as nações que conquistaram novos domínios, introduzir logo nos povos conquistados o seu próprio idioma, por ser indispensável, que este é um meio dos mais eficazes para desterrar dos povos rústicos a barbaridade dos seus antigos costumes e ter mostrado a experiência que, ao mesmo passo que se introduz neles o uso da língua do Príncipe, que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração e a obediência ao mesmo Príncipe.”

 

O idioma de Rui Barbosa era certamente o idioma do Príncipe, mas este já não reina mais nem por lá, imagina aqui no Brasil. Querer que falantes do português no Brasil, em pleno século XXI, utilizem o idioma que foi falado por Rui Barbosa é a revelação clássica de um dos mais antigos preconceitos lingüísticos. É, sem dúvida, um ato de insanidade lingüística.

No entanto, cabe uma análise racional do preconceito lingüístico que se estabelece a partir da ação conjunta de fatores variados. O primeiro desses fatores é a criação ou elevação de uma língua oficial para representar o Estado. É a partir daí que, segundo Bourdieu, 1996, se constroem valores distintivos entre os produtos do habitus lingüístico. A constituição de um Estado estabelece paralelamente a constituição de valores simbólicos de um mercado lingüístico, fato que complementará a natureza da dominação simbólica e a essência de toda uma cultura lingüística.

O Estado, com suas políticas lingüísticas, dá, portanto, o primeiro passo, para a imposição de uma dada norma lingüística, como foi feito no Brasil na época de Pombal, mas para que uma cultura lingüística se constitua como característica de um povo é preciso que se estabeleça uma outra força de dominação, que é a dominação simbólica caracterizada por coerções exercidas também entre os membros de uma comunidade.

Como ressalta Bourdieu (1996), não se devem imputar os avanços da língua oficial e da dominação simbólica unicamente à eficácia direta de coerções políticas. Segundo o mesmo autor (p.37), “toda dominação simbólica supõe, por parte daqueles que sofrem seu impacto, uma forma de cumplicidade que não é submissão passiva a uma coerção externa nem livre adesão a valores”. Por conta dessa característica é que todos nós temos nossa parcela de participação na manutenção de valores simbólicos atribuídos a diferentes variedades lingüísticas, por nossa cumplicidade tácita ou explícita com o sistema de dominação.

Dessa forma, se permitimos um ensino lingüístico acrítico e antidemocráticos estamos transformando a escola num espaço legítimo de vendas e compras simbólicas do mercado lingüístico que se estabelece por força das diferenças sociais; e estamos contribuindo, portanto, com o crescimento de uma cultura lingüística preconceituosa, o que certamente não é coerente com os propósitos de uma educação democrática.

 

Fonte: VIANA, Suelen de Andrade. Por uma interface sociolinguistica no livro didático de lingua portuguesa: análises e contribuições. Dissertação mestrado. UFSC, 2005.

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